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Posted on 03/abril/2017 in Crônicas, Slide

Muito além do luar do sertão

Muito além do luar do sertão

Aceitei o convite de minha prima Graça, cujos pais moram no sertão da pequena cidade de Santana do Matos, quase 200 quilômetros de distância da capital potiguar, Natal. “Sonia, se prepara, porque lá a coisa não é fácil, é sertão”, alertou a Graça (só para vocês entenderem, a Graça não é minha prima, na verdade seu falecido marido que era meu primo, e claro, seu filho João, em segundo grau).

Passar sete dias no sertão nordestino em uma forma de vida bastante rudimentar, sem água encanada, sem chuveiro, sem banho quente, sem telefone e muito menos sem internet, sem carro e praticamente sem nenhum tipo de transporte, e sem quase nada do que estamos acostumados nessa vida corrida por aqui,  ainda por cima embaixo de um sol escaldante, não foi  realmente uma tarefa muito fácil.

Praticamente todas as casas do sertão têm essa “arquitetura”. Essa aí é a da dona Salvina e do seu Luiz, que me hospedaram por 7 dias. Luz elétrica foi um dos avanços incluído nas politicas de redução de pobreza, assim como a cisterna abastecida semanalmente.

No entanto, tudo isso foi amenizado ( e muito) com o calor humano que recebi de uma gente simples e com grande sabedoria, com o por do sol cinematográfico e o luar…ahh pude finalmente entender porque Catulo da Paixão Cearense compôs “que saudade do luar da minha terra”, na música “Luar do Sertão” … realmente, “não há, ó gente, luar como esse do sertão…” (mas esse vou ficar devendo as imagens pois estava com uma câmera que não permitiu registrar).

Transporte no sertão é assim, seja para se locomover ou para carregar água, atividade que começa cedo com deslocamento de aproximadamente 3 quilômetros

Eu nasci em uma família do interior de São Paulo, Fernandópolis, Indiaporã e cidades ali do entorno, e  claro que já conhecia a vida no campo. Mas uma coisa é o campo verde e com tudo brotando, outra coisa é uma paisagem cinzenta onde não adianta plantar nada porque não vai brotar…

Na estrada

A primeira parada, na verdade foi em Recife (PE), na casa da Vânia e do João, migrantes do sertão. De lá seguimos de ônibus até Natal, quase 5 horas de estrada. Um “pit stop” rápido na casa de outros membros da família,  Etelvina e Elenildo. Todos me receberam como se eu fosse da família.  A receptividade do povo nordestino é impressionante.

Não há ônibus de Natal para Santana do Matos ou  outras cidades do entorno, muito menos até o sertão. A única opção é usar transporte alternativo. Fomos de van.O  percurso, que duraria no máximo 3 horas, fizemos em quase 7, foi um “pinga-pinga” danado.Descemos em um pequeno vilarejo, onde a única iluminação era da Lua e de lá fomos de pau-de-arara dessa vez fomos na boléia. Ainda não seria a minha primeira viagem de pau de arara oficialmente.

O sertão

O dia no sertão começa cedo, por volta das 3h30 quando nas grandes cidades, muitos ainda estão pensando em ir dormir. As primeiras tarefas: tirar o leite e buscar água no rio para abastecer a casa (essa água é utilizada para limpeza, banho e outras tarefas, para o consumo utiliza-se água distribuída por caminhões pipa).

O que deveria ser água é terra batida e seca. Há 2 anos não chovia no sertão

Mandacaru é o único que resiste

Às 5 da manhã o sol já está forte e se essas atividades não forem feitas logo cedo, impossível fazer mais tarde devido ao calor. Ao meio dia o sol é tão forte que é difícil até ficar de olhos abertos.  A melhor opção nesse horário é a rede, para dormir, claro.

Vale lembrar que apesar da vida difícil, as cenas de tristeza e morte pela seca não existem mais.  E agora, sem levantar nenhuma bandeira política, isso se deve às políticas de redução de pobreza do Governo Federal que aqui no sudeste principalmente, a classe média tanto critica, mas que para aquela gente faz toda a diferença, digo mais, é o que garante a sobrevivência do sertanejo nordestino.  Me refiro aos programas Bolsa Família, Bolsa Escola, ao projeto de construção de cisternas que garante água limpa para os moradores e mais recentemente à instalação de energia elétrica.

Em todos os lados a paisagem era essa

A cidade de São Rafael engolida pela represa

Há dois anos não chovia naquela região. Durante os sete dias que estive lá, por duas vezes a chuva ameaçou, mas não passou de alguns pingos. O cenário é desolador. Quente, seco, cinzento… o vento é forte e traz muita poeira.  No lugar dos rios, grandes campos de areia. “Paisagem dos  filmes do velho oeste”, lembrou o meu primo João Pedro durante uma de nossas caminhadas em meio aos mandacarus. A planta retém bastante água e por isso resiste à seca. Também pode ser utilizada como ração para o gado.

Pau de arara e São Rafael

Uma das grandes dificuldades no sertão é o deslocamento. Jegue, cavalo, moto e bicicleta são os principais “veículos” utilizados. Um ônibus escolar leva as crianças para a escola, que fica no distrito de Santa Teresa, outro benefício recente por lá. Até bem pouco tempo as  crianças andavam quilômetros a pé ou iam nos transportes alternativos em péssimas condições de segurança.

De cima do pau-de-arara: a antiga estação de trem Oscar Nelson, agora residência

Trabalho praticamente não há

O principal meio de deslocamento ainda é o famoso pau de arara em que os passageiros viajam sobre a carreta do caminhão dividindo espaço com a carga. E lá fomos nós para São Rafael, cidade próxima dali onde também ocorre a feira e é uma das opções para abastecer a dispensa. Minha primeira viagem de pau de arara.

A cidade de São Rafael  foi “engolida” pela barragem Armando Ribeiro Gonçalves  em meados dos anos 80. Os moradores foram deslocados e criou-se a Nova São Rafael.  A cidade antiga, que ficou embaixo d´água, virou ponto turístico. Devido a seca, o nível da barragem abaixou e era possível ver as antigas construções nas águas. Os  moradores, saudosos, relembram onde eram suas casas e outros pontos da cidade. A quadra poliesportiva estava inteira fora da água e era possível até jogar um futebol.

Impossível não lembrar de outra canção muito bem cantada pela dupla Sá & Guarabira:

“O homem chega, já desfaz a natureza

Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar

O São Francisco lá pra cima da Bahia

Diz que dia menos dia vai subir bem devagar

E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato que dizia que o Sertão ia alagar

O sertão vai virar mar, dá no coração

O medo que algum dia o mar também vire sertão”

Aprendizado e despedida

Estes sete dias, em que o tempo demorava demais a passar, talvez pelo meu ócio total – coisa rara na minha rotina – serviram para provar que a gente precisa de muito pouco para ser feliz: uma casa simples, feijão com arroz, e claro, não pode faltar  tapioca e o leite fresquinho tirado todo dia na vaquinha, uma rede e um mundão todo lá fora… A manutenção das raízes, das tradições, da cultura sertaneja, o jeito caipira de falar com sotaque “arretado”, perseverança e esperança de que do céu virá a solução em forma de água e o sertão mudará de cor,  do cinza para o verde que se juntará com as outras cores, das plantações e das flores…

Cacimba, uma espécie de poço artesiano artesanal de onde se retira água

O amor pela Terra. Ir embora do sertão é algo que não se discute. Os mais jovens até fazem isso em busca de trabalho, de melhores condições de vida, como fez minha prima Graça e tantos outros nordestinos nesse Brasil. Mas seus olhares estão sempre voltados para o nordeste…

Por fim, minha eterna gratidão e respeito à dona Salvina, uma caboclinha alegre, bem humorada, apesar do semblante sofrido, uma mãezona que me recebeu de braços abertos e sorriso largo e se despediu com  olhos marejados. Ao seu Luiz, caboclo sério, religioso, que acorda de madrugada, dorme cedo e mantém a família nas tradições,  que é mais um dos que engrossam o coro dos que “só deixam o cariri no último pau de arara”.

No fogão a lenha sempre tem feijão e no café da manhã não falta a tapioca

A partida. Um abraço apertado, um olhar, um sorriso, lágrimas da dona Salvina. Seguimos viagem rumo a Açu (de lá partiríamos para Natal) sob o luar mais lindo que já vi na minha vida, um aperto no coração, um mistura de sentimentos, uma sensação de que minha vida nunca mais seria a mesma, uma experiência que vou guardar para sempre. E foi impossível conter as lágrimas que insistiram em rolar… Na estrada, um carro na contramão em nossa direção. Por muito pouco, ou melhor, eu diria que por um milagre, a minha vida e das outras duas pessoas não terminou ali mesmo, no sertão nordestino…entendi que essa foi a resposta que precisava, minha vida estava realmente recomeçando no sertão nordestino!

Dois dias depois que saí do sertão,  veio ela, a chuva. Não foi suficiente para recomeçar o plantio mas foi suficiente para renovar a esperança!

Ah e dois anos depois, dona Salvina com o coração cheio de saudade de Gracinha, saiu do sertão, entrou num avião pela primeira vez na vida e veio para São Paulo, mais precisamente para Carapicuiba, passou alguns dias com os parentes mas rapidinho voltou para o sertão

Ah que saudade, dona Salvina!  Que vontade de voltar para o sertão!

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