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Posted on 13/junho/2017 in Pronto, falei!!, Slide

“Estamos consternados e pedimos socorro”

“Estamos consternados e pedimos socorro”

No mesmo dia em que o Prefeito de Cotia Rogério Franco publicou em seu perfil a criação de uma força tarefa para zerar as filas de atendimento nas unidade básicas de saúde de Cotia (o que é sim uma ação importante, necessária e urgente), recebi também o desabafo da Jana Janie, técnica de enfermagem que atua no Pronto Atendimento de Caucaia do Alto. E resolvi  publicar aqui para deixar registrado na esperança também de que os responsáveis pela Saúde de Cotia leiam e sensibilizem, ajam.

“Não tenho outra alternativa se não narrar, do contrário padeço!

Sou Jane, sou técnica  de enfermagem. Respiro minha profissão, abro mão de muitas coisas em função dela. Deixo minha família todas as noites em casa para cuidar da sua. Ah mas não é uma queixa, para mim é um dom, uma vocação, um chamado. Amo incondicionalmente, por amor e com amor faço tudo que me é atribuído.

É clichê eu sei mas não escolhi a enfermagem foi ela que definitivamente me escolheu e por ela mais uma vez estou aqui nestas linhas deste texto enorme, tomada por um profundo e triste sentimento de impotência.

Esta noite meu plantão foi no Pronto Atendimento adulto e infantil – relativamente pequeno a julgar pelos 20.000 habitantes de Caucaia, longe cerca de 17 km do único hospital da cidade onde moro e  trabalho. Somos cerca de 220.000 moradores em Cotia.

Essas pessoas adoecem, se acidentam, são vitimizadas pela violência, imprudência, descaso, fatalidade. Ou apenas gestam e precisam dar à luz e é para isso que estamos aqui, em prontidão 24h por dia, todos os dias para ajudá-las​, socorrê-las, ampará-las e zelar por suas vidas.

Então meus caros amigos, por que temos que escolher a ordem de quem deve ser socorrido a um especialista primeiro? O jovem enfartado aos 30 anos? O homem que teve os ossos da mão esmagados ao manusear uma máquina no trabalho? Ou a gestante em franco trabalho de parto?

Se acham que  este dilema é o que me fez escrever este texto,  adianto que não.

É do conhecimento de todos os envolvidos direta ou indiretamente que  nosso Pronto Atendimento dispõe apenas de uma ambulância para o transporte dos nossos pacientes e dos exames que colhemos.

É do conhecimento de todos que a base do SAMU há anos foi desativada da localidade e o assunto se quer é discutido.

é do conhecimento de todos que o percurso daqui para o hospital é longo, abarrotado de lombadas e a estrada em muitos trechos precária. Então pergunto: quando enfim teremos os olhos das autoridades competentes voltadas para nossas dificuldades e deficiências?

Agora, o que não é do conhecimento de todos e faço pública essa história,  não com prazer ou de forma midiática, mas como um pedido urgente e angustiante de socorro.

É que no momento em que um desses pacientes acima citados estava sendo removido aos cuidados do Hospital recebemos uma garotinha atingida por uma roda de caminhão. Suas lesões eram gravíssimas e importantes;  o risco de morte iminente.

Como, meu bom Deus, como é possível darmos um atendimento adequado e de qualidade quando em nossa Emergência nosso aspirador funciona de forma precária e pouco útil?

Como evitar uma lesão ainda mais grave e permanente de coluna se não temos um único colar cervical infantil? A estabilidade da cervical da garotinha foi feita com as mãos rijas e imóveis da equipe de enfermagem, do início do atendimento até a sala de emergência do HRC. Triste não?

E o mais doloroso, como ficar calada diante da espera de 43 minutos pelo retorno da ambulância?

Caros senhores, a velocidade com que a ambulância retornou pôs em risco a vida de todos os ocupantes (médico, enfermeira e motorista) todos salvos em suas casas agora;  graças aos céus, mas lutaram contra o tempo.

Sobre os longos 43 minutos: não pude segurar as lágrimas diante dos olhinhos inertes da garotinha, sua briga pela vida, a nossa luta em fazer o melhor com o pouco que tínhamos, a dor dos pais suplicando para que não deixássemos sua filhinha morrer…

Todo o sangue nas luvas, nos jalecos, na maca, bem como em toda sala de emergência representava o estado da minha alma dilacerada diante da fragilidade da vida e o descaso com a mesma.

Um competente médico disse que operamos um milagre esta noite. Mas isso não aplaca em nada a tristeza que sinto desde então.

Essa semana tivemos a visita do prefeito e dos vereadores em nosso PA. Falaram das futuras instalações, das futuras adequações e de que as obras em breve serão iniciadas. Mas e o agora,  senhores? E o já?

Não podemos deixar que se torne mais e mais reincidente a falta de meios para salvarmos nossas crianças. Precisamos garantir aos pais que seus filhos ficarão bem. Não podemos mais lamentar a falta de um aspirador adequado, de um colar cervical, de gaze, de medicamentos e de uma ambulância sobressalente.

Não dá mais pra fingir que tudo está bem porque a verdade é que não está.

Operar milagres não deveria ser a ordem aqui. Não é uma competência nossa, precisamos de materiais, de maquinários e insumos. Eles fazem a diferença entre o viver e o morrer e nós sabemos operá-los, estudamos e nos aperfeiçoamos para isso.

Precisamos de ajuda ou do contrário não poderemos ajudar ninguém… E isso é triste e doloroso para nós que juramos defender e zelar pela vida sempre, desde o momento da concepção até o findar dela.

Não temo que este texto chegue ao conhecimento do senhor prefeito ou então do Senhor secretário de Saúde. Muito pelo contrário, se alguém puder fazer com que chegue… porque custo a acreditar que essas questões possam ser alheias ou insignificantes ao poder público.

Estamos consternados e pedimos socorro.

Termino meu longo, porém não menos importante texto, com uma frase que eu disse ainda essa manhã a um grande amigo quando a despeito do ocorrido me disse que não gostaria de estar no meu ofício. Minha resposta meus caros amigos foi: “às vezes eu também não…”

Nota da redação:

Cara Jana,

Primeiro meu respeito, minha solidariedade e meus parabéns a você e toda a equipe do Pronto Atendimento de Caucaia do Alto, pela atuação e respeito à vida que você relatou. A Saúde e cidade precisam de mais pessoas como vocês.  E com certeza teremos uma cidade muito melhor.

Seu texto será encaminhado ao Prefeito Rogério Franco apostando na sua sensibilidade e disposição de resolver e de ajudar . E vocês a não precisarem operarem milagres…

EM TEMPO:  Algumas horas depois de publicar este texto/desabafo, Jane divulgava a informação de que a garotinha em questão não resistiu aos ferimentos e morreu…

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